Três dias seguidos de tragédias nos Estados Unidos provocam comoção nacional e acirramento da tensão racial: agora há vitimas brancas e negras. A emboscada que matou cinco policiais e feriu outros sete na noite de quinta-feira em Dallas, no Texas, justamente no protesto pacífico contra a morte de dois negros por policiais brancos na terça e na quarta-feira, se converteu no mais letal ataque a oficiais desde os atentados de 11 de Setembro de 2001. Autoridades, que temem uma nova onda de conflitos no país, descartaram a ligação do caso com o terrorismo internacional, indicando que se trata de problemas raciais internos. O episódio foi classificado como “perverso, calculado e desprezível” pelo presidente Barack Obama.

Protestos pacíficos voltaram a ocorrer na noite de ontem em várias cidades, porém de forma mais comedida do que na noite de quinta-feira. Foi neste tipo de manifestação que a tragédia ocorreu. Algumas circunstâncias do episódio seguem sob investigação — inclusive com o apoio do FBI (a polícia federal americana). O governador texano, Greg Abbott, disse na noite de ontem que a polícia busca por cúmplices ou “coconspiradores” do ataque. Ele defendeu a “unidade”, mas muitos, inclusive seu vice-governador, reforçaram o discurso de ódio e culparam os movimentos negros, que “pregavam contra policiais”, pela tragédia.

A polícia informou que o objetivo do atirador de Dallas, identificado como Micah Xavier Johnson, reservista de 25 anos que atuou na Guerra do Afeganistão em 2013 e 2014, era “matar brancos, em especial policiais brancos”, segundo os investigadores. A agência Reuters informou que ele havia publicado, no sábado passado, mensagens em comunidades na internet de simpatia a grupo de nacionalistas negros, como os Panteras Negras do Mississippi. Johnson, que atirava nos policiais de uma posição elevada — a poucas quadras de onde o presidente John Kennedy foi assassinado de forma semelhante por um atirador em 1963 — acabou morto na operação, graças ao uso de um robô-bomba. Outros três suspeitos foram detidos pela polícia local.

— Tentamos prendê-lo vivo, mas não tivemos alternativas — disse o governador.

‘UM PLANO BEM ARQUITETADO’

Inicialmente, a polícia chegou a pensar que eram vários atiradores, ou ao menos dois, por causa dos ângulos diferentes dos disparos. Depois, segundo as investigações, ficou claro que a mesma pessoa ia a andares diferentes para realizar o massacre. Os investigadores classificaram o ato como “um plano bem arquitetado”. Segundo autoridades, em sua casa havia materiais para a fabricação de bomba, munição e um manual com táticas de combate. de acordo com a polícia, o atirador disse, antes de ser morto, que não pertencia a nenhuma organização, e se mostrou “revoltado” com as mortes de negros em Louisiana e Minnesota.

Outras manifestações registraram incidentes de menor impacto. Na noite de anteontem, dez pessoas foram detidas no protesto de Nova York. Mas o caso letal não foi o único atentado contra policiais na noite de quinta-feira. Segundo a Associated Press, oficiais foram agredidos em outros três estados: Tennessee, Geórgia e Missouri — regiões com elevado percentual de população negra e histórico de violência racial. No Missouri, o ataque ocorreu numa blitz — condição em que um policial em Minnesota matou Philando Castile, de 32 anos, que teve sua morte transmitida ao vivo pelo Facebook pela namorada e foi o grande estopim das manifestações de quinta-feira.

O FBI informou, em maio, que 41 policiais foram mortos em trabalho em 2015, um número quase 20% menor do que as 51 mortes registradas no mesmo período no ano anterior. Ainda não há estatísticas disponíveis neste ano, mas a morte de cinco policiais numa mesma operação é a maior desde o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, quando 71 oficiais perderam a vida.

Algumas manifestações geraram preocupações de autoridades. O vice-governador do Texas, Dan Patrick, afirmou numa entrevista ao vivo que os movimentos negros que propagavam o ódio a policiais nas redes sociais eram “culpados” e que os manifestantes que buscaram proteção da polícia quando os tiros começaram eram “hipócritas”. Depois, se desculpou:

— Vi muitas mortes nas últimas horas — justificou-se.

APELOS PELO FIM DA VIOLÊNCIA

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, afirmou ontem que a sensação de medo dos americanos não deve ser respondida com violência:

— Não vamos nos precipitar para que este seja o novo normal no país. Temos que refletir sobre o que queremos ser como país, que sociedade queremos deixar para nossos filhos — declarou. — Vamos olhar seriamente para a facilidade com que os malfeitores conseguem pôr suas mãos em armas.

Parentes das vítimas de policiais pediram cautela e respeito aos agentes da lei.

— Eu só quero justiça para todos, não apenas para o meu namorado e o bom homem que ele era — disse Diamond Reynolds, que transmitiu ao vivo a morte de Castile em Minnesota.

Quinyetta McMillon, mãe de Alton Sterling — morto à queima-roupa na terça-feira pela polícia de Louisiana — condenou a morte dos policiais em Dallas:

“Mais violência não é a resposta. Nós repugnamos os atos condenáveis contra os membros do Departamento de Polícia de Dallas”, disse ela em comunicado distribuído por seus advogados.

O chefe da polícia de Dallas, David Brown, que é negro, fez um dramático apelo à unidade:

— Isso tem que acabar, esta divisão entre nossa polícia e nossos cidadãos — disse ele, cuja organização, no meio do caos na cidade, divulgou por engano a foto de um suspeito, Mark Hughes, que, após virar um dos homens mais procurados do país, foi detido, mas inocentado